Smartphones, smart spaces? O uso de midias locativas no espaco urbano em Curitiba, Brasil. - Vol. 44 Nbr. 133, September 2018 - EURE-Revista Latinoamericana de Estudios Urbanos Regionales - Books and Journals - VLEX 741209789

Smartphones, smart spaces? O uso de midias locativas no espaco urbano em Curitiba, Brasil.

Author:Dallabona-Fariniuk, Tharsila
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RESUMO | O uso de dispositivos moveis cresceu consideravelmente nos ultimos anos. Essas tecnologias tornam-se responsaveis por fundir, em um mesmo universo, varias formas de comunicacao das pessoas com o mundo, criando situacoes de dependencia e de pertencimento. Mais recentemente, a gestao urbana vem utilizando smartphones e aplicativos como ferramentas auxiliares na identificacao e resolucao de demandas. Questiona-se como o uso desses dispositivos influenciam a utilizacao do espaco urbano, em termos de reconhecimento, de permanencia e de valorizacao. E objetivo desta pesquisa caracterizar influencias do uso de smartphones no meio urbano, a partir do levantamento de possiveis impactos relacionados ao uso de aplicativos. A pesquisa, baseada em analise de discurso simplificada, categorizou aplicativos utilizando-os como objetos elucidativos para os conceitos teoricos. Concluiu-se, que, neste recorte, o conceitos de espaco ampliado e reconhecivel, presente nao apenas nas relacoes entre pessoas e tecnologias, mas tambem no incentivo ou desestimulo de utilizacao dos espacos.

PALAVRAS-CHAVE | tics, espaco publico, transformacoes socio-territoriais.

ABSTRACT | In recent years, the use of mobile devices has grown considerably. This technology has become responsible for merging different communication systems, into a single universe, creating situations of dependence and belonging. More recently, urban management has been using smartphones and applications as auxiliary tools in identifying and solving urban demands. In this paper, the authors question how the use of these devices influences the use of urban space, in terms ofrecognition, permanence and valorization. This research aims to characterize influences of the use of smartphones in the urban environment, from the identification of possible impacts related to the use of apps. This research, based on simplified discourse analysis, categorizes applications using them as enlightening objects for theoretical concepts. Results show that the concept of augmented space is recognizable, which is present not only in the relations between people and technologies, but also in the incentive or discouragement of the use of space.

KEYWORDS | ICTs, public space, socio-territorial transformations.

Introducao

A partir dos anos 1990, especialmente, o advento de novas tecnologias resultou em uma revolucao informacional. Com o passar do tempo essas Tecnologias de Informacao e Comunicacao (tics) tornaram-se cada vez mais pessoais, cada vez menores, e cada vez mais invasivas. Essas sao caracteristicas que continuam a se acentuar, fazendo com que as tics nao possam mais ser consideradas separadamente das dinamicas de vida em sociedade e do comportamento humano. Nesse contexto, ate mesmo o planejamento urbano passou a dar mais reconhecimento as tecnologias como influentes nas atividades sociais, economicas e culturais. A disseminacao de dispositivos moveis como smartphones e tablets--constituidos de dispositivos que os transferem a capacidade de geolocalizacao por gps ou triangulacao de antes dos celulares, as chamadas midias locativas--foi um dos elementos fundamentais deste processo.

Nos ultimos anos, o uso de dispositivos moveis cresceu consideravelmente. Os dados da empresa de tecnologia cisco (2016) mostram que em 2015 havia aproximadamente 7,6 bilhoes de aparelhos conectados a internet no mundo, e que este numero deve chegar a 11,6 bilhoes ate 2020. Na America do Norte e no oeste europeu a proporcao de uso desses dispositivos representara aproximadamente 2,8 aparelhos per capita, e na America Latina, aproximadamente 1,5 aparelhos per capita. Tambem no Brasil o crescimento e expressivo. Em 2014 o numero de usuarios de aparelhos celulares chegava proximo a 80% da populacao, o que representou um aumento de 142,8% em relacao ao ano de 2005. Alem disso, a utilizacao da internet apenas em celulares vem ultrapassando a utilizacao em outros meios domesticos, como desktops e notebooks, em especial na regiao Norte do pais (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicilios [pnad], 2016).

O incremento da tecnologia nos dispositivos moveis permitiu o surgimento de funcionalidades que, entre outros fatores, tambem auxiliam e influenciam a vida em cidades: sistemas de localizacao, georreferenciamento, fotografias, troca de mensagens, etc. Neste processo cria-se o que Boullier (2014) chama de ecossistema de dados pessoais, quando a consciencia de "estar conectado" full time passa a ter muita importancia. Assim, os aparelhos celulares tornam-se responsaveis por fundir, em um mesmo universo, varias das formas de comunicacao das pessoas com o mundo: pertences pessoais, localizacoes, transacoes financeiras, etc. Desse modo, os dispositivos criam situacoes de dependencia e de pertencimento que se assemelham a "envelopes" comunicacionais, ou bolhas imaginarias capazes de encapsular uma serie de atividades, transacoes, circulos sociais e comportamentos, individualizados ao redor de cada pessoa e potencializados por um unico dispositivo de acesso, comunicacao e processamento. Isto e parte do que Boullier (2014) denomina "Habitele", um conceito composto pela associacao dos termos "habito", "habitat" e "telematica", que representa a articulacao entre o uso das midias locativas e o comportamento humano.

Nesse contexto, o espaco urbano sofre tambem alteracoes, pois deixa de ser essencialmente um espaco fisico de circulacao, habitacao, lazer e trabalho, e passa a agregar tambem caracteristicas de insercao de informacoes, com grandes volumes de dados (Big Data) e com a construcao de redes infocomunicacionais. As funcoes presentes nos dispositivos (especialmente aplicativos) passam a ser agentes potenciais de transformacao no meio, inclusive com a transformacao de relacoes territoriais de posse, pertencimento, localizacao e movimento de corpos e mentes no espaco, fisico e informacional.

Como exemplo, pode-se citar a alteracao da permanencia das pessoas nos lugares a partir da oferta ou nao de rede WiFi (Lemos & Firmino, 2015). Ou, ainda, a demanda crescente de seguranca e monitoramento, que faz com que aplicativos sejam formulados e disponibilizados no sentido de permitir controle sobre o espaco e reconhecimento das localidades. E o que Farman (2012), denomina "vigilancia locativa", em que a participacao do usuario e fundamental para a construcao do espaco social. Ainda mais recentemente, a disseminacao de jogos de realidade virtual baseados em estruturas construidas tambem vem possibilitando novas formas de apropriacao e utilizacao das areas urbanas.

A nocao de apropriacao do espaco esta diretamente relacionada a construcao de identidades urbanas, temas esses trabalhados pelo filosofo e historiador frances Michel de Certeau em meados dos anos 1980. De acordo com o autor (2002), a apropriacao esta relacionada ao modo como cada um situa os outros em relacao a si mesmo, agregando valores espaciais, sociais, politicos e culturais; e esse processo foi enfatizado e ampliado com a circulacao de informacoes e com a comunicacao. A dificuldade de se contextualizar esse fenomeno reside no fato de que e muito complexo combinar todas as individualidades, os varios "mundos" em um mesmo objeto a ser tratado.

A concepcao de Certeau sobre o espaco urbano, de acordo com Dosse (2004), constitui-se por tres eixos: a producao de um espaco que e proprio de cada um, as tradicoes que sao organizadas sem um tempo definido, em um "nao-tempo", e a construcao da cidade como um "sujeito" universal. Dosse afirma que, a partir disso, a nocao espacial de Certeau e muito mais antropologica e existencialista, na qual a cidade e traduzida pela experiencia, pelo caminhar e pela apropriacao dos cidadaos. Alem desses fatores, a utilizacao de smartphones vem sendo considerada tambem como uma ferramenta auxiliar de gestao urbana. Seja pela possibilidade de maior alcance de informacoes sobre a cidade, seja no sentido de orientar a participacao cidada online, a rede de conexoes moveis vem sendo objeto de cada vez mais discussoes sobre modos de gerir as cidades. Esse processo e parte do que denomina-se "cidade inteligente", onde o uso intensivo de tics--para coleta, organizacao e analise de dados e informacoes--, associadas a automacao de acoes e atividades de organizacao de infraestrutura e territorios urbanos, protagonizam estrategias de planejamento e gestao de inumeras grandes e medias cidades em todas as regioes do globo (Caragliu, Del Bo & Nijkamp, 2011).

Essas dinamicas de interacao pessoal e tecnologica sao parte do chamado "espaco ampliado", um conceito que esta associado a ampliacao da capacidade comunicacional e do alcance de distancias, mesmo sem existir deslocamentos geograficos (Firmino, 2011).

Entender as dinamicas espaciais influenciadas pela invasividade dessas tecnologias constitui um desafio em diversos aspectos. Primeiramente, pela compreensao de que o acesso aos dispositivos nao e homogeneo, nem quanto a motivacao para o uso, nem quanto as distribuicoes social e geografica. Em segundo lugar, pela consideracao de que a disseminacao dessas tecnologias e um processo relativamente recente, em relacao ao que representa na linha do tempo do urbanismo. Uma terceira preocupacao se relaciona a necessidade de se compreender o reflexo dessas novas interacoes sociedade/tecnologia nos modos de concepcao, construcao e apropriacao do espaco urbano, bem como arriscar uma nova epistemologia do territorio capaz de abarcar as sobreposicoes presentes entre as camadas materiais e digitais da atividade de demarcacao da acao humana no espaco-tempo.

Ao longo do tempo a industria do entretenimento buscou refletir, em obras como Matrix (Wachowski & Wachowski, 1999) e Blade Runner (Scott, 1982), a consolidacao, permanencia e interferencias das tecnologias na sociedade. Essas obras, assim como outras, traduziram as perspectivas e receios atrelados as tecnologias de suas epocas. Mais recentemente, a serie de tv Black Mirror (Brooker, 2011) tambem...

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