A urbanidade como devir do urbano. - Vol. 39 Nbr. 118, September - September 2013 - EURE-Revista Latinoamericana de Estudios Urbanos Regionales - Books and Journals - VLEX 635838885

A urbanidade como devir do urbano.

Author:Nato, Vinicius M.
Position:Artículo en portugués
 
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RESUMO | Poucos conceitos em urbanismo aspiram tocar a condição urbana e a experiência da cidade como o de "urbanidade"--e talvez nenhum outro tenha encontrado uma definição táo pouco sistemática. Afastando-se das definições usuais das condiçóes espaciais da urbanidade, o presente trabalho propóe uma abordagem alternativa ao tema a partir da aproximação entre duas áreas ainda estranhas entre si: estudos urbanos e a filosofia. Buscando reconhecer os diferentes modos da experiência urbana e as dimensões fenomenológica, comunicativa e ontológica da urbanidade como uma trama de relações entre atores, atos e espaços, o artigo discute as condiçóes da diversidade, as tensões de desintegração social e as propriedades materiais que assegurariam um papel potencialmente integrador à urbe. Finalmente, propõe o reconhecimento de diferentes urbanidades pautadas por um ethos como requisito: a coexistência das formas de vida e o bem-vir de alteridades como o devir do urbano numa urbanidade plena e aberta. Palavras-chave: urbanidade, devir, experiência urbana.

PALAVRAS CHAVE : cultura urbana, espaço público, urbanidade.

ABSTRACT | Few notions aspire to reach the condition of urban life and experience as that of "urbanity"--and perhaps no one has done so more imprecisely. Departing from usual focus on the spatial conditions of urbanity, the paper brings a potentially fresher approach which draws from disciplines still largely unrelated: philosophy and urban studies. A series of concepts of urbanity unfold as we explore the experiential, communicative and ontological conditions of urbanity as a lively fabric of relations of actors, acts and spaces. The approach shows the fabric of urbanity cut across by an ethos inherent to forms of life open to an unbounded communication, and aims at a definition which would allow us to get reconnected with the common sense notion: urbanity as the ethos of an open coexistence, the orientation to the Other and the becoming of the urban.

KEY WORDS | urban cultura, public space, urbanity.

Início: philo | urbe | sophia

Para Alejandro Jelvez

O espaço e o tempo são a estrutura em que toda a realidade está contida. [...] Descrever e analisar o caráter específico que o espaço e o tempo assumem na experiência humana é uma das tarefas mais atraentes e importantes de uma filosofia antropológica.

Ernst Cassirer (Ensaio Sobre o Homem)

Há muitos que resistem a um certo tipo de filosofia. Eles a acham difícil de apreciar--abstrata, e aparentemente sem grande valor prático. Ela lhes parece um vago e obscuro nonsense. Sempre houve, nas várias épocas da história humana, pessoas que assim pensassem--assim como sempre houve aqueles que percebessem as revelações do pensamento especulativo como sendo da maior importância. (1)

John M. Anderson, Introdução a Discourse on Thinking, de Martin Heidegger

[FIGURA 1 OMITIR]

Poucos conceitos em estudos urbanos aspiram tocar a condição urbana como o de "urbanidade: Talvez não por acaso, poucos outros encontram definições tão difusas ou pouco sistemáticas. Conceitos conhecidos variam da visão de senso comum da urbanidade como "civilidade do convívio; ao foco nas relaçóes objetivas entre configuraçóes do espaço urbano e o uso do espaço público, e às condiçóes espaciais de uma aparente "vitalidade urbana". Tal observação sugere uma série de perguntas: seria possível capturar a condição urbana? O que diferencia a experiência urbana da experiência de outras espacialidades ou ambientes náo urbanos? Mais amplamente, como as cidades medeiam nossa experiência do mundo ao nosso redor e do outro? O presente texto se afastará de definiçóes usuais de urbanidade para propor um entendimento a partir de uma área capaz de oferecer subsídios para capturar a experiência particular da urbanidade; uma área tradicional que, apesar de considerar o problema do espaço, ainda é distante ao tema urbano: a filosofia.

Na verdade, o evocar do urbano como aspecto da experiência humana--isto é, do que é vivido, da vida com o outro--já inicia essa aproximação. Tanto do ponto de vista da filosofia quanto dos estudos urbanos, esse propósito significa a entrada em territórios potencialmente estranhos, talvez novos, e a possibilidade de tocar aspectos que seriam vistos com grande dificuldade em cada uma dessas áreas separadamente. Este texto é, também, um convite para caminhar dentro e entre áreas ainda um tanto estranhas entre si. Entretanto, uma incursão assim requer preparaçáo prévia, pelo menos quanto a dois aspectos.

Primeiro, é necessário esclarecer o que o pensamento filosófico pode oferecer à abordagem urbanística e vice-versa. Segundo, é necessário abordarmos essas diferentes áreas com cuidado, se pretendemos explorar o tema da urbanidade por meio de uma aproximação teórica entre elas. Essa aproximação náo pode ser feita de fora de cada uma dessas áreas, como que por um estrangeiro, numa construção em que ideias oriundas de cada território sejam meramente justapostas de modo ad hoc. Atentos a essas condições, vejamos o que o pensamento filosófico pode oferecer ao entendimento da urbanidade, e o que a investigaçáo do urbano pode revelar sobre nossa forma de vida e experiência, temas da filosofia.

Considerando a filosofia, notemos que nossa cultura a fixa e a joga em uma espécie de "outro plano; como se seus temas pouco tivessem de contato com nossas vidas cotidíanas. Na verdade, a filosofia lida com coisas táo reais quanto a forma de uma cidade. Ela fala de coisas constantes do modo como vivemos. Usualmente, atentamos aos fatos como eles se apresentam. O que a filosofia faz é tocar nas condições dos fatos: o que há por trás deles, a natureza de sua aparição, seus sentidos e efeitos sobre nossa experiência. Ela não é abstrata em seus temas, mas precisa da abstração para alcançar e descrever o cerne dos fatos e da nossa experiência dos fatos.

Considerando a reflexão sobre a cidade, observemos que nossa experiência do mundo e do Outro ¿profundamente mediada pela cidade--como uma estrutura do sensorial, como emaranhados da ação e interaçáo ancorados sob a forma de lugares e espacialidades. Observemos também que a filosofia, ainda que tenha se ocupado imensamente do problema do tempo e das condiçóes temporais da experiência e da ação (como em Henri Bergson ou Martin Heidegger), também dispõe de conceitos de espaço (como o espaço como categoria da experiência em Kant, o mundo humano do espaço e tempo de Cassirer ou o habitat do próprio Heidegger, entre outros). Entretanto, o conceito de espaço na filosofia tende a ser visto como um pano de fundo menos ou mais homogêneo, abstraído da forma que o espaço toma nas estruturas que chamamos cidades e do efeito das suas complexidades no experienciar e no agir. Filósofos não parecem dispor de conceitos analíticos o bastante do meio urbano, ricos o bastante para tocar a estruturação espaço-temporal da experiência e da vida coletiva que toma a forma das cidades. Há uma especificidade, um detalhamento no desdobramento do espaço na forma urbana, uma riqueza material que parece canalizar e amparar, o tempo todo, o fluxo da prática e do vívido. Em ambiente urbano, somos sempre mediados em nossos atos pela espacialidade particular das cidades.

Essa estruturaçáo da experiência do mundo e do outro que toma a forma de cidade é, na verdade, um primeiro esboço da definição de "urbanidade". Antecipo que construirei aqui camadas, conceitos de urbanidade, perseguindo sua trama fio por fio. A exploração do tema nesses termos vai nos levar a diferentes instâncias da realidade social e material e, por consequência, a diferentes ideias e autores como guias--o que pode resultar em um caminho bastante heterogêneo em termos teóricos. Dada a dificuldade dessa descrição, um texto com esse objetivo só poderia procurar esboços e proceder por aproximaçóes: uma busca por traços da urbanidade capturados, de modo inevitavelmente parcial pelo discurso; traços construídos como conexóes entre conceitos filosóficos e urbanos:

(1) Experienciar urbanidade significa experienciar o mundo em condiçóes diferentes de outros arranjos espaciais da vida coletiva--um modo particular entre tantas experiências possíveis, atrelado à estrutura da própria cidade, caleidoscópio de nós e canais da ação. Por extensão, diferenças entre e dentro das cidades, assim como diferenças na condição urbana dos próprios atores, também implicam em possibilidades distintas de experienciar o mundo. Essas diferenças terão repercussões sobre o agir e o fazer, e no que podemos chamar "experiência do Outro": o contato e o reconhecimento entre os diferentes. A primeira seção busca reconhecer a urbanidade como experiência particular do mundo e do outro, bem como os diferentes modos de experiência urbana através de Bergson, Ricoeur e Lim.

(2) A experiência da urbanidade é, sobretudo, uma experiência do mundo social: representa nossa imersão em suas condiçóes de continuidade e integração, e seu oposto--as tendências de distanciação social. A experiência da urbanidade é dependente dessas condiçóes. A segunda seçáo argumentará que: conhecer o lugar da cidade na experiência do mundo social implica reconhecer as forças de diferenciaçáo que iniciam na própria diferenciaçáo das identidades e na formaçáo de grupos e campos sociais. Veremos como essas forças afetam a própria reproduçáo do mundo social e póem em risco a urbanidade como experiência da diversidade e da complexidade social. Para tanto, explorarei conceitos de Heidegger e Weigert, Bourdieu e Freeman.

(3) A terceira seção explora a urbanidade, experiência das diferentes identidades na cidade, como um modo de compensaçáo das tensóes inerentes de diferenciaçáo interna e desintegraçáo relativa do mundo social. Proporei a urbanidade como uma experiência de transcendência das diforenfas sociais no momento do encontro, da interaçáo e da imersão e participação em um mesmo contexto urbano, em uma mesma realidade social e material. Argumentarei que a experiência particular da...

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